| A solidão no relacionamento de um casal de profissionais Ana Rosa Abraham Funes (psicóloga)
Em muitas ocasiões, escutamos a reclamação dolorosa de homens e mulheres, como resultado da insatisfação de suas expectativas conjugais. Este descontentamento produz falta de motivação, desilusão, vazio existencial e, até mesmo, solidão e abandono. Realmente resulta paradoxal, mas em um grande número de casamentos, as pessoas continuam juntas apesar de que, há muito tempo, deixaram de compartilhar suas vidas.
As mulheres casadas chegaram a fazer sucesso, tanto no lar como na profissão, no entanto, para muitas delas continuam de pé vários questionamentos: Para que serve o meu sucesso se eu me sinto tão distante do meu marido? O que está acontecendo com o meu casamento, se cada vez mais compartilhamos menos tempo juntos? Por que, cada vez mais, tenho sucesso na carreira, porém me sinto mais sozinha no âmbito amoroso? Por outro lado, o homem também passa por momentos de muita confusão, devido a diferentes argumentos culturais enraizados em padrões sociais que o impedem de compreender que a mulher não é somente um ser “de idéias curtas e cabelos compridos” (Schopenhauer, cit. en: Mordock, 1993).
Portanto, isto pode gerar mágoas e um distanciamento conjugal; não cabe dúvida que os homens também desejam ser entendidos e compreendidos em sua natureza, mas como permitir que eles se sintam reconfortados em uma época na qual tudo parece girar em torno à compreensão que se deve ter com as mulheres? Acreditem em mim: às vezes, eles também se sentem abandonados e pouco reconhecidos por nós, mulheres.
Então, ao observar o desgaste emocional em que vivem muitos casais, a notável falta de aproximação e de interesses comuns, refletimos sobre a crise de valores, sobre o desequilíbrio de expectativas e a redefinição do conceito de casamento, à luz do novo século. A mudança social é iminente e o casal de hoje deve adaptar-se a esta mudança para que o núcleo familiar não sucumba diante de tais adversidades. É preciso incorporar as mudanças sociais e conservar as tradições valiosas e produtivas, para que o casal contemporâneo consiga superar os períodos de crise que se apresentem ao longo de sua vida matrimonial. Entre estes fatores, encontra-se a entrada da mulher ao mundo profissional, um mundo que – por muito tempo – era exclusivo do homem e, portanto, é preciso se questionar sobre o seguinte: Seria o desenvolvimento profissional de cada cônjuge uma condição para experimentar a solidão, ou seria a falta de intimidade emocional, as exigências e a luta pelo poder que, unidas a uma incapacidade do casal para combinar sua vida amorosa e profissional, favorecem que a solidão e o abandono estejam presentes em uma história de amor?
A compreensão de três palavras-chave nos permitirá chegar à resposta que procuramos: intimidade, crise, solidão. A intimidade é a necessidade de estabelecer vínculos significativos e de valor emocional, como indivíduos precisamos compartilhar realizações, sucessos e fracassos. A vida não teria sentido se não tivéssemos a oportunidade de compartilhar com outros nossos afetos; a intimidade amorosa é um desejo autenticamente humano, através do qual tratamos de consolidar uma relação conjugal, na qual nos sintamos atraídos sexual e emocionalmente por outro, mas – sobretudo – na qual experimentamos a oportunidade única de crescer e nos transformar, junto com este outro (que nos faz vibrar o coração e o espírito completo), cada vez um melhor ser humano.
O problema é que esquecemos que um homem e uma mulher também têm de enfrentar o desafio de crescer juntos nos famosos tempos de crise. Sim, as discussões – embora pesadas – também encerram a oportunidade importantíssima de autoconhecimento e de uma melhoria pessoal e conjugal! O problema é que os casais de hoje associam as discussões à falta de felicidade conjugal e até mesmo chegam a pensar que não deveriam ter se casado nunca. Aqui é onde a solidão aparece como protagonista na cena conjugal porque, quanto mais discussão sem resolver, menos comunicação, mais ressentimento e mais afastamento. Parece então que a única saída é aferrar-se aos sucessos externos, entre eles a carreira profissional e as ocupações externas que resultam ser fontes de prazer imediato.
A experiência solitária na relação conjugal associa-se a certas características específicas como: pessimismo, tristeza e abandono. Em casos severos, pode se associar também com sintomas de quadros depressivos, isolamento e baixa auto-estima. É importante sublinhar que a solidão não somente se sente depois do fim de uma relação, como também vir quando as expectativas forjadas ao longo da vida conjugal não são satisfeitas e, então, esta solidão se manifesta como um “déficit na qualidade da relação conjugal”, como resultado de uma falta de aproximação e contato, que prejudicam terrivelmente o vínculo amoroso.
Agora, se bem é certo que o conflito é parte natural de uma relação a dois, por que existem alguns que vivem períodos de solidão e outros que experimentam uma solidão tão grande, descarnada e esmagadora que faz experimentar uns níveis de dor existencial insuportáveis? O problema é que também existem relações conjugais que não foram bem consolidadas desde o princípio, isto é, a idealização e o romance extremo sempre foram o único importante... “O sonho do conto de fadas dura até que a realidade da vida em comum aparece” e estes casais não pensaram nisto, portanto, a luta de poder e manter as expectativas à custa deles mesmos, acaba com sua história de amor. O verdadeiro amor não é aquele que nos faz sofrer por sofrer, este amor deve ser traduzido em: sentir, pensar, amadurecer e, lógico, também enamorar-se e viver intensamente a vida, mas sem perder nossa capacidade de ser livres.
Não esqueçamos que os relacionamentos amorosos e verdadeiramente íntimos devem proporcionar segurança, que será traduzida na vida adulta em confiança, liberdade e crescimento. Crescimento que permitirá ao casal viver, por sua vez, com independência, respeito e capacidade de decisão. Trocando em miúdos, nós como adultos decidimos como queremos viver nossa relação a dois: como Romeu e Julieta (que não tiveram um final feliz), ou com os pés na realidade, aprendendo a harmonizar o romance, a paixão e o sentimento, com a inteligência, a capacidade de compartilhar e ceder quando sabemos que estamos exigindo demais do parceiro/a.
Procurar saídas externas (excesso de trabalho, dedicar-se demais aos filhos, etc.), diante de um conflito conjugal, jamais será uma alternativa para viver em equilíbrio. Com muita humildade e sensibilidade é como um casal sobrevive nestes tempos que correm e, sobretudo, com valentia, isto é, com a claridade que a valentia nos dá para saber se nossa história de amor poderá se transformar em oportunidade de amar realmente ou se será uma história de correntes, dependência e um refúgio para não viver solitário.
Gostaria de terminar esta reflexão com a estrofe de um poema de Mario Benedetti, que realmente plasma o que significa viver uma relação a dois, total e íntima:
“Si te quiero es porque sos mi amor,
mi cómplice y todo,
y en la calle codo a codo,
somos mucho más que dos”.
(“Se te quero é porque es meu amor,
Meu cúmplice e meu tudo,
E na rua, lado a lado,
Somos muito mais que dois”).
|