Frente a frente com um pederasta

Por: Eugenia Ponce de León Álvarez

 
Na minha experiência clínica tem me tocado escutar todo tipo de conflitos e situações, algumas mais graves que outras, problemáticas atuais sobre os conflitos no casal, mas o que mais tem me impactado foi a experiência  de me encontrar frente a frente com um Pederasta.

Gostaria compartilhar o que me ocorreu e assim poder transmitir de um modo vivencial o que experimente e a hipótese que daí desenvolvi sobre como operam os pederastas.

Durante o transcurso de uma semana entrevistei uma pessoa, um homem de uns 45 anos aproximadamente, seu motivo de consulta refere “Problemas de afetividade” no transcurso das entrevistas percebi que seus problemas de afetividade como ele as chamava, se referiam mais bem a condutas e atos pederastas com meninas, resultou que tinha acusações e se encontrava sendo investigado.

Minha primeira reação foi de muita raiva pelo fato de tratar de minimizar seus atos, que em minha opinião eram muito graves, senti-me molesta, enganada e desconfiada. Numa segunda entrevista ocorreu justo o contrário, começou a relatar sua história e me comoveu profundamente, me deixando com a necessidade de consolá-lo, quase de abraçá-lo, permaneci unicamente ouvindo e pensando que é o que me ocorria.

No dia seguinte, ao começar a entrevista e escutá-lo novamente, senti de novo uma profunda raiva e me sentia enganada, para minha surpresa durante essa semana, meus sentimentos divagaram entre estes dois pólos e foi a partir daí que dei uma interpretação ao que tinha me acontecido, durante essa semana e que concretamente, é o que seguramente lhe ocorre às crianças que sofrem abuso sexual por parte dos adultos.

Cheguei a esta conclusão baseando-me nos sentimentos que provoco em mim estar frente a frente com ele durante uma semana, e perguntar-me: como é que tinha ido de um pólo a outro de um dia para outro?

O primeiro que chamou minha atenção, foi como ele mesmo minimiza a problemática reduzindo-a  um nome de “problemas de afetividade”, o que me leva pensar, que esta pessoa realmente o vê como algo sem tanta relevância e importância, no fundo não sente nenhum remorso e na realidade não acredita que seja um problema e daí deriva o que causou em mim.

Num segundo momento quando me relata sua história, o que eu experimentei foi o contrário, me comoveu até o ponto de querer consolá-lo, agora bem o que aqui sugiro é: Será esta a estratégia que utiliza o pederasta? É dizer, Eu sou uma adulta, e me provocou todos estes sentimentos e se eu… tivesse sido uma menina? Minha conclusão é: Que provavelmente, teria ido me sentar junto a ele ou me sentar nas suas pernas, teria ido abraçá-lo e então ele, teria provavelmente abusado de mim, porque a criança se aproxima desde o afeto, mas o pederasta lhe responde sexualmente.

Claro que como sou uma adulta, não respondo a isso que ele tenta provocar, mas com as crianças, é uma estratégia muito poderosa e perigosa, já que é toda uma manipulação e um processo de sedução, para que a criança seja quem se aproxime. É importante mencionar que normalmente são pessoas encantadoras que justamente o que transmitem é confiança e um grande coração ante as pessoas no geral e à sociedade, daí o impacto quando se descobre algum tipo de abuso por parte de algum líder da Igreja, por que o pederasta opera com duas caras, é dizer são como uma moeda que têm dois lados, e esses lados se definem como:

Na cara que dá ao mundo e à sociedade, que normalmente se encontram muito idealizadas pelas pessoas e a outra cara, que é onde leva a cabo seus atos e condutas pederastas que é o outro pólo onde esta toda a maldade.

Minha raiva então radicou praticamente no engano tão marcado e que a fim de contas ele me fez o que faz às pessoas:

Seduziu-me e por isso cai nas suas redes, sentindo esta compaixão, descubro seu proceder e se instala em mim uma profunda raiva, claro que a diferença é que esta vivencia é dentro do consultório e todo se reduz a palavras e sentimentos e daí manifesto minha conclusão, o problema é que na vida cotidiana isto que descrevo se leva ao ato, ou seja, ao abuso em concreto, mas talvez isto que compartilho pode ser útil e ajude a compreender talvez de forma profunda, que é o que pode provocar ou como opera a grandes rasgos a mente e as estratégias que emprega um pederasta.
 


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