O papel do pai: integrando a parentalidade Santiago Ortega Serrano (psicólogo)

Uma revisão sobre a participação do pai, desde o desejo da gravidez até os primeiros anos de vida. Desde uma postura psicanalítica, explica-se o papel ativo do pai e a função de apoio à mãe, assim como ao casal. Uma revisão sobre a ajuda do casal para uma boa paternidade e maternidade, sem eliminar o papel específico do homem e da mulher. É proposta uma postura de integração das funções tanto paternais como maternais para poder dar espaço à paternidade. E assim refletir sobre a integração, sublinhado o ser pai e ser parceiro.

Palavras-chave: desejo, gravidez, parentalidade, função do pai, integração, casal.

Quando consultamos a bibliografia sobre o pai, percebemos que é insuficiente para chegar ao que desejamos. Existem muitos teóricos que fala sobre o papel do pai como interruptor da díada mãe – filho (Benedek, 1983; Solís Pontón, 2003); outros, que ressaltam o pai como quem impõe a lei. Muitos autores modernos falam da participação mais ativa do pai. Depois de uma revisão sobre estes teóricos, surge o desejo de poder integrar o que suas contribuições têm de mais importante.

.Por outro lado, alguns propõem que a mãe é a principal participante no desenvolvimento psíquico e emocional da criança; alguns mais modernos colocam que o pai também tem muita responsabilidade. Por este motivo, neste artigo tentamos explicar que ambos, pai e mãe, participam do desenvolvimento saudável ou patológico do filho, em sua presença ativa ou em sua ausência real.

Existem muitos estudos que falam do processo de desejos e fantasias na gravidez da mãe. Diante disto surge a questão sobre se existirão certas fantasias no pai devido à gravidez.

Um último tema, com o qual se trata de concluir, sendo uma reflexão importante na que se quer deixar a pergunta aberta para que mais pesquisas possam ser feitas: ser pai, ser parceiro, e o trabalho que deve ser realizado para que possa haver uma integração.

É importante falar do desejo dos pais de ter um filho, de tal maneira que se possa estudar o vínculo prévio à gravidez. A psicanálise nos tem ensinado que as motivações inconscientes têm um maior peso do que as conscientes. Sempre que se fale da relação entre duas pessoas, será preciso falar de projeções, motivações, fantasias e desejos que se depositam mutuamente. Falar de desejo dos pais sobre o filho nos leva diretamente ao relacionamento e aos vínculos que serão estabelecidos com a criança, como também entre o casal.

Lebovici (1995) afirma que existem cinco representações psíquicas da mãe a respeito do bebê, entre elas se destacarão duas, no presente artigo. Em primeiro lugar, encontra-se o bebê imaginário, que tem a ver com as fantasias conscientes e pré-conscientes da mãe sobre o filho e, em segundo lugar, o bebê fantasmático, que são as fantasias inconscientes da mãe. É importante se questionar se é somente a mãe quem tem estas representações psíquicas. Não será que o pai irá formando uma imagem do filho? De fato, sim, tanto pai como mãe vão formando imagens, desejos, fantasias sobre o filho, tanto conscientes como inconscientes. O pai, por exemplo, tem fantasias sobre seu próprio pai e, quando realiza o ato reprodutor, leva a cabo a meta de sua rivalidade, já que finalmente pode conseguir a independência, como também pode ter seu próprio objeto – a mãe que o livra dos ciúmes edipianos. Ao mesmo tempo, pode afirmar sua virilidade, superando suas tendências regressivas, sabendo-se alguém não castrado. (Anthony, Benedek, 1983).

Por outro lado, já projetando no desejo de um filho as aspirações de seu ideal do eu, do que sempre quis conseguir, do que nunca teve, do pai que quis ter... No entanto, estas aspirações poderiam interferir no amor paternal, transformando seu filho em uma ilusão e não respeitando sua individualidade, assim, o filho talvez “se torne” seu próprio pai.

Um item importante de tratar é o desejo de ser pais, que nos conduz à inter-relação que existe no casal. Que ambos participem deste desejo de gravidez e da gravidez em si, permite que o pai vá se preparando e apoiando a mãe para o parto. A mãe deve permitir que o pai participe deste processo, já que “o pai precisa do apoio afetivo da mãe para se transformar em um pai interessado” (Lebovici, et.al. 1995, p. 78). Os desejos inconscientes são muito variados e dependem da história de desenvolvimento, tanto da mãe, do pai, como do casal. Estes desejos sempre existirão e o ideal seria que se possa compreender para que se chegue a dar a separação e individuação do filho, separando-se dos desejos dos pais. E que, na medida do possível, diminuam as fantasias narcisistas, ou de formar uma totalidade simbiótica, ou de alguém que virá a salvar a relação (Vives, 2001). A final de contas, a criança é desejada e imaginada por seus pais, é produto de seus desejos.

Nas melhores condições, na gravidez os pais irão tendo um desenvolvimento psíquico que os preparará para levar a cabo sua parentalidade. Ambos, sobretudo a mãe, durante este período, têm fantasias de desejar e amar seu filho como gostariam de ter sido amados e desejados. Nestes momentos, ela precisará do apoio do homem. Ambos serão gratificados, vendo o desenvolvimento embriológico do filho que ainda não nasceu, durante estas visitas ao ginecologista, é que se vai formando a consciência de ser pai, ser mãe, ser pais.

Para estudar as funções ou o papel paterno, deve-se começar definindo o papel que o pai vai desenvolver. Estas funções podem ser divididas em duas: quanto ao apoio à mãe e a respeito do filho. A primeira função (apoio à mãe), o papel do pai poderia ser resumido nas seguintes palavras: apoio e contenção. Para vários autores (Solís Pontón, 1999; Vives, 2001; Winnicott, 1999), desde a gravidez, e nos primeiros meses de vida da criança, a mãe terá certas regressões e identificações com seu filho, uma “preocupação materna primária” pelo desejo de ser boa mãe, lembrando-se do que sua mãe foi para ela. É nesse ponto que o pai pode contê-la para que possa desempenhar uma boa maternidade. O pai pode ser uma “mãe suficientemente boa” para que ela possa sê-lo para seu filho. É por isso que o pai intervém indiretamente através da mãe e diretamente com o bebê, dando passagem ao processo de triadificação. “O pai entra em contato com sua esposa e com o bebê, de maneira direta e indireta” (Barriguete citado por Solís Pontón (Eds.) 2003, p. 31).

É neste ponto, sem necessidade de separar fortemente, já que se trata de um processo integrador, no qual é preciso falar do papel do pai em relação ao filho. O pai, nos primeiros meses de vida, quase não participa da díade mãe-filho, é por isso que – pouco a pouco – deve ir interrompendo para o aparecimento do terceiro, ou seja, ele mesmo. Acho que um dos trabalhos principais é o de “reconhecimento”, que o homem possa se reconhecer pai da criança, processo psíquico que começa desde a gravidez, e o que mais o favorece é o “papel ativo do pai”. Enquanto a mãe descansa, o pai pode ninar, carregar e conter seu filho, trabalhando gradualmente a tríade. Por outro lado, procurando o sorriso do filho que pode ajudar na diferenciação e integração gradual do imago pai.

Nessas procuras repentinas, nas quais a mãe descansa e o pai procura o filho, pode-se formar o que Benedek chama a “Genuína qualidade paternal” que é a habilidade para atuar diante do filho, com sensibilidade de resposta empática (Benedek, 1983). Assim, nestes espaços que poderiam ser chamados íntimos, o pai vai aceitando seus próprios sentimentos de ternura e pode projetá-los ao filho. Além de ir reconhecendo a criança, esta última poderá ir integrando o seu pai.

Assim como o peito materno é uma zona erógena, no caso do pai é o pescoço, e isto serve para o desenvolvimento motor da criança já que a figura paterna impulsiona o bebê pelo contato forte. Os pequenos empurrões, carregá-lo, as cócegas podem provocar uma certa quantidade de agressão sã para poder entrar em contato com o mundo. No jogo, o pai pode ter certas regressões e ter um jogo infantil; e a criança pode identificar-se com o pai, favorecendo em ambos a maturidade e o crescimento.

Barriguete introduz o conceito de “pai suficientemente bom”. Seria aquele que deixa que a mãe brilhe, que pode compartilhar e contribuir com sua criatividade em relação ao bebê, à sua mulher, sendo quem ajuda à capacidade de ninar (Barriguete citado por Solís Pontón, 2003).

Em relação ao desenvolvimento psíquico e a importância do papel paterno, pode-se fazer algumas considerações, já que têm um grande impacto para o desenvolvimento psíquico da criança. Para Margaret Mahler, dos 15 a 24 meses, o pai aparecerá no mundo da criança, justamente na aproximação (Mahler; Pine; Bergman, 1995). Nesta etapa, aparece como mecanismo importante a identificação. É por isso que a participação do pai deve ser prévia, para que a criança possa integrar e internalizar tanto a figura total do pai, como seu papel implícito (Kernberg, O. 1996). Sobretudo nesta etapa em que acontece a diferenciação de sexos e que a criança pode se identificar com a figura paterna.

Sem dúvida, é preciso considerar que a palavra que pode nos acompanhar para entender este processo de ser parceiro e ser pai é a “integração” e, para concluir, queremos recalcar três pontos importantes nos quais podemos resumir a importância da parentalidade.

Em primeiro lugar, que tem a ver com o trabalho do psicólogo, é que na mente do casal o melhor é que exista um desenvolvimento psíquico que permita esta integração. Se cada membro do casal integrar o ser pai/mãe do filho, ao ser casal e companheiro sexual, poderá beneficiar os vínculos estabelecidos tanto com os filhos como para o próprio casal.

Em segundo lugar, esta integração pode dar pé à comunicação, entre o tema dos filhos como o tema do casal, amor, afeto ou simplesmente vida cotidiana. E, em terceiro lugar, este integrar-se como pais/casal favorecerá a separação e individuação da criança que os assumirá como casal.

Estas três considerações são as que devem ser consideradas para os próximos estudos de parentalidade e de papéis desempenhados na família. É importante falar da integração para que possamos nos estruturar melhor em todos os aspectos da vida. Afinal de contas, nesta constante pesquisa, pode-se dizer que o filho vai ter um melhor desenvolvimento, desde que o casal possa atingir uma maturidade suficiente. Ao mesmo tempo, falar de parentalidade não significa que o pai vai substituir as funções da mãe, uma vez que cada um tem seu próprio papel, mas que o papel ativo dele é primordial para um ótimo desenvolvimento da criança, como também do pai e da mãe. Uma participação ativa do pai está em envolver-se mais como pai. Quanto mais seja possível falar de integração e papéis, mais o ser humano poderá se integrar.