| A importância do jogo para o desenvolvimento da criança Bertha Parra Lemus (psicóloga)
Se passássemos um dia completo na companhia de uma criança, nos daríamos conta que todo seu dia transcorre entre um jogo e outro. Todos sabemos que as crianças em idade pré-escolar baseiam a maior parte de suas atividades no jogo, mas, poucas vezes, refletimos sobre a importância e transcendência que ele tem para o desenvolvimento dos pequenos. Em muitas ocasiões, até mesmo escutamos as queixas dos adultos dizendo: “Passa todo o tempo brincando! Não faz outra coisa”. Pois é assim, o trabalho da criança é brincar. A criança que não brinca será um adulto que não trabalha. O jogo é para a criança o que o trabalho é para o adulto.
Através dos jogos, as crianças crescem, estimulam seus sentidos, fortalecem seus músculos, coordenam o que vêem com o que fazem e aprendem a controlar seu corpo. Através dos jogos, as crianças descobrem o mundo e descobrem a si mesmas. Adquirem novas habilidades e se tornam mais competentes nos aspectos cognitivo, social, emocional, motor, físico, lingüístico, etc., isto é, o jogo contribui para o desenvolvimento de todas as áreas que estão envolvidas no desenvolvimento do menor.
Alguns pesquisadores classificam o jogo das crianças em sociais e cognoscitivos. O primeiro se refere à participação e interação das crianças com outros pequenos durante o jogo, enquanto que o segundo reflete o nível de desenvolvimento mental da criança. Expliquemos então, em que consiste cada um deles, com mais detalhes.
O jogo social é aquele em que as crianças interagem entre si, em diferentes graus. À medida que uma criança vai crescendo, seu jogo tende a ser mais social e cooperativo. Em um princípio, jogam sozinhos, depois o fazem ao lado de outras crianças, até que finalmente incluem as outras pessoas em seu jogo. O ambiente é um fator importante para o desenvolvimento do jogo social, isto é, se a criança passar muito tempo sozinha, tiver poucos ou não tiver irmãos, assistir a muita televisão ou contar com brinquedos mais elaborados ou complicados, tenderá a jogar ou brincar sozinha durante mais tempo, já que seu meio a terá feito mais passiva e estará menos acostumada à interação com as outras pessoas.
Geralmente, as crianças que passaram mais tempo em creches ou jardins de infância jogam mais socialmente. O jogo social é considerado mais maduro do que o solitário, pois o fato da criança considerar os outros para suas atividades revela a gradual diminuição do seu egocentrismo normal. No entanto, existem jogos solitários que estão mais dirigidos ao desenvolvimento cognoscitivo do que ao social, de maneira que contribuem para o desenvolvimento da independência e da maturidade cognitiva. Com isto, não pretendemos dizer que um tipo de jogo é melhor do que outro, simplesmente tratamos de evidenciar as vantagens de cada um deles.
Também é importante considerar a personalidade de cada criança, alguns pequenos gostam mais das atividades não sociais do que das atividades de grupo, e não necessariamente se trata de crianças com problemas de insegurança, auto-estima ou egocentrismo extremo. Existem crianças que são mais introvertidas que outras, desde pequenas, sem que isso implique um transtorno em seu desenvolvimento.
O jogo cognoscitivo, como foi mencionado antes, é aquele que nos revela o desenvolvimento mental das crianças. Este tipo de jogo evolui à medida em que a criança avançar em seu desenvolvimento cognitivo. O pequeno progride a partir do jogo repetitivo, que consiste em movimentos musculares simples (rodar uma bola). Depois, passa ao jogo construtivo (construir uma torre de blocos), mais adiante, já pode realizar o chamado jogo simbólico (brincar de professor, de mãe, médico, etc.), para depois passar ao jogo formal com regras (dominó, damas, etc.)
O jogo simbólico é muito importante para o desenvolvimento. A capacidade de fingir se baseia na capacidade para usar e lembrar dos símbolos. Este tipo de jogo começa quase aos três anos, atingindo o auge entre os quatro e cinco anos, daí então, aos seis ou sete, evolui para o jogo seguido por regras. Através da imaginação, as crianças conseguem entender melhor o ponto de vista de outra pessoa, desenvolvem habilidades para resolver problemas sociais e podem expressar sua criatividade.
É importante levar em conta o ambiente em que a criança se desenvolve, isto é, se os pais ou pessoas responsáveis pelo cuidado do menor, o impulsionam ou não ao jogo fingido. Uma criança que passa muito tempo diante do televisor, terá mais dificuldade em usar sua criatividade do que outra que conta com recursos a ajudam a utilizar sua criatividade.
A criança que contar com recursos que ajudem a expressar sua criatividade através do jogo, tanto social como cognoscitivo, será um adulto sem dificuldades para encontrar sua vocação e que, melhor ainda, desfrutará fazendo seu trabalho. No entanto, uma criança que por alguma razão foi impedida de brincar, jogar e mostrar sua criatividade, se tornará um adulto com dificuldades para trabalhar; poderá ser um adulto passivo em vez de ativo e participativo em seu trabalho ou profissão.
O título desta pequena reflexão pretende conscientizar sobre a importância de certas atividades para a criança, que ao adulto podem parecer intranscendentes em um dado momento. E você, que tipo de criança foi? Jogou e brincou ou vivia diante da televisão?. Por outro lado, até que ponto você desfruta seu trabalho atual? Encontrou sua verdadeira vocação ou foi sendo levado pela vida?. Pense nisto.
|