Teologia do Corpo:
primeira catequese
de João Paulo II

Por: Julie Marie

L.S.N.S.J.C-  para sempre seja louvado
Sagrada Família, rogai por nós

No ano de 1979, João Paulo II, iniciou uma catequese que refletia sobre o amor e a sexualidade no plano divino. As suas palavras são consolo na ansiedade de entender o plano de Deus para nossas vidas, ajudam a refletir sobre muitas idéias confusas que existem sobre o amor, a sexualidade, o matrimônio, o celibato e a família. As suas palavras transformam o coração das pessoas permitindo obter uma nova visão da VIDA e a FAMÍLIA.

João Paulo II escolheu colocar estas catequeses “sobre o amor humano no plano divino” como base de todo o seu pontificado. Ele, com sua profunda sabedoria, inspirada na Sagrada Tradição da Igreja, e ao mesmo tempo com sua originalidade, nos levam a ver que, se não compreendemos muito bem o que significa ser homem e mulher, e entender a relação entre os dois no plano salvífico - desde a perspectiva antropológica, teológica e bíblica - estamos longe da raiz de todos os problemas que hoje enfrentamos, mas para os quais a Igreja – e só a Igreja! - tem a resposta, pois é Mestra e Mãe da humanidade.
 
De setembro de 1979 a abril de 1984 todas as quartas-feiras, o Sumo Pontífice oferecia o que ele mesmo nos afirmou como base da “civilização da vida”, na sua posterior Encíclica, EV (n.97): “É uma ilusão pensar que se pode construir uma verdadeira cultura da vida humana se não (...) compreendemos e vivemos a sexualidade, o amor e a existência inteira no seu significado verdadeiro e na sua íntima correlação”.

Christopher West diz em que “a atitude geralmente repressiva das gerações cristãs anteriores, não da Igreja, usualmente silenciosa ou, no máximo com os seus “não faça”, é largamente responsável pela ignorância cultural sobre os ensinamentos da Igreja sobre sexo. Precisamos de uma nova linguagem para romper o silêncio e reverter a negatividade. Nós precisamos de uma teologia “nova” que explique como a ética sexual cristã -longe de ser uma lista de proibições puritanas - corresponde perfeitamente com o mais profundo anseio de amor e união dos nossos corações”. E graças a Providência, foi exatamente isso que o Santo Padre João Paulo II nos deu:   uma teologia com uma linguagem ‘nova’ pela qual nos ensinou sobre o nosso fim, sobre a razão da nossa existência como homem e mulher e nos faz apaixonar sobre o plano divino: “Deus nos revela seu segredo mais íntimo: Ele mesmo é comunhão de amor: Pai, Filho e Espírito Santo, e nos destinou a cada um, a participar desta mesma comunhão.” (CIC, n. 221)

Como escreveu Jorge Reyes: “João Paulo II desenvolveu uma doutrina sobre o amor e em diversas ocasiões, fundamentado no Magistério, expressa que o homem não pode existir “sozinho”, mas somente pode existir como “unidade de dois” e por isso “em relação” com outra pessoa; ser a imagem e semelhança de Deus comporta, por tanto também existir em relação, em correlação com outro “eu”. Desta forma, a unidade dual explica que a definitiva criação do homem consiste na criação da unidade dos seres.”

Estamos chamados então a reconhecer o significado esponsal do corpo humano e com ele, através da sua feminidade e masculinidade, o chamado à doação total, seja no sacramento do matrimônio, ou como celibatários pelo Reino de Deus. O corpo humano, diz o Papa, inclui desde o inicio o atributo nupcial, isto é, a capacidade de expressar amor, o amor pelo qual a pessoa se torna dom, e por meio deste dom realiza o sentido de sua existência.

É a partir deste dom de si mesmo, livre, total e consciente que o CVII define a minha e a sua vocação: “O homem, única criatura terrestre a qual Deus amou por si mesma não pode encontrar sua própria plenitude se não é na  entrega sincera do dom se si mesma”. (GS 24)

 Para expor em grandes linhas estas catequeses do Papa, usarei como base, um texto de Christopher West. A proposta do Papa -resume ele- é “realmente transformar a nossa visão sobre o corpo e a sexualidade, ao afirmar que "o corpo, e somente o corpo humano, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. O corpo foi criado para trazer à realidade visível do mundo, o mistério invisível escondido em Deus desde a eternidade, e portanto, para ser um sinal Dele”. (audiência 20.2.80)

O que isso significa? Significa que nós, criaturas, não podemos ver a Deus. Ele é puro espírito. Mas Ele quis fazer o seu mistério visível a nós e por isso estampou um sinal em nossos corpos, criando-nos como homem e mulher à sua própria imagem. A missão desta imagem é nobilíssima, mais linda do que qualquer imaginação pode sequer sonhar: a missão de refletir a Santíssima Trindade: que é “uma perfeita comunhão divina de amor entre Três Pessoas”. João Paulo II, então, diz que o homem é imagem e semelhança de Deus, não somente pelas suas potencias intelectuais -inteligência, vontade e liberdade-, mas também através da comunhão de pessoas (communio personarum), que homem e mulher formam desde o princípio. Assim, o corpo tem um significado esponsal porque revela o chamado do homem e da mulher a se tornarem dom um para o outro, um dom que se realiza plenamente na sua união de ‘uma só carne’. O corpo também tem um significado generativo que, se Deus permitir, trás um “terceiro” através desta união. Neste sentido, o Para nos diz que o “matrimônio constitui um ‘sacramento primordial’, entendido como um sinal que verdadeiramente comunica o mistério de amor e vida Trinitária de Deus, ao esposo e à esposa, e através deles às suas crianças, e através da família ao mundo todo”.

Lógico que, como o Catecismo esclarece muito bem, isso não significa que Deus seja sexual. Deus é puro espírito no qual não existe espaço para diferença sexual. Mas as respectivas perfeições do homem e da mulher refletem algo da infinita perfeição de Deus (CIC, n.370). Esta é a razão pela qual o Papa fala da sexualidade precisamente como um sinal do mistério de Deus. Seguindo a Escritura, ele usa a união do homem e da mulher como una analogia para entender algo do mistério divino. Mas sempre teremos que ter presente que quando buscamos expressar em linguagem humana, o mistério de Deus permanecerá transcendente em relação a esta analogia, como a qualquer outra. Ao mesmo tempo João Paulo II nos diz que esta analogia é a melhor para compreender o mistério de Deus. (29.9.82)

A união nupcial é desenhada para proclamar o mistério da Trindade – isto é, que Deus é doação de amor e vida. Neste sentido o Papa diz que a linguagem do corpo é profética, pois está chamada a revelar o próprio amor divino. No entanto, um ato esterilizado intencionalmente proclama o oposto. Ele muda a linguagem do corpo, numa negação especifica do amor criativo de Deus, fazendo dos esposos “falsos profetas”. E aqueles que são falsos profetas, quando descobrem a beleza da redenção de sua sexualidade, se tornam grandes profetas que tanto precisamos hoje! Ninguém, ninguém, por mais fundo no poço que esteja, está perdido para Nosso Senhor e para a Igreja!

João Paulo II afirma que “o ethos cristão é caracterizado pela transformação da consciência e da atitude da pessoa humana, tanto do homem como da mulher, a tal ponto que expresse e realize o valor do corpo e do sexo, de acordo com o plano original do Criador, colocados como eles estão, ao serviço da comunhão de pessoas, que é o substrato mais profundo da ética e cultura humana (22.10.80). Por isso, a dignidade e balanço da vida humana “depende em todo momento da história (...) de quem ela será para ele e quem ele será para ela (8.10.80).” Resumindo, se uma cultura não respeita a verdade sobre a sexualidade, esta destinada a ser uma cultura da morte.

Conhecemos bem esta cultura da morte e por isso sabemos quanto foi difícil a recepção da profética Encíclica HV do Papa Paulo VI em 1968, até mesmo no interior da Igreja. Em palavras do Papa João Paulo II “as reflexões feitas (nestas catequeses) servem para enfrentar as interrogações nascidas em relação à encíclica Humana Vitae. As reações que a encíclica suscitou confirmam a importância e a dificuldade destas interrogações. Elas são reafirmadas, também, pelos ulteriores enunciados de Paulo VI, onde ele salientava a possibilidade de aprofundar a exposição da verdade cristã neste setor”.

Mas seria ilusão da minha parte – e até um pecado teológico-, se eu ou mesmo alguém mais preparado quisesse explicar em ‘20 minutos’ o que o Sumo Pontífice falou em 129 audiências durante mais de 4 anos! Ou eu deixaria o Papa muito triste ou vocês totalmente frustrados! Não quero nenhum dos dois, de jeito nenhum! Então minha meta hoje, e vou terminando, é uma só e a considero de suma importância: dizer a cada um dos presentes que EXISTE na IGREJA este tesouro, e convidar, implorar, a que cada um conheça, ame e propague esta boa notícia onde quer que esteja, através da sua vocação pessoal e de sua missão como batizado. Seguramente ninguém está excluído desta ‘boa notícia’ como ninguém está excluído do Santo Evangelho!

A mensagem é tão atual e necessária, que um palestrante protestante Glenn Staton que eu escutei em Chicago em 2006, apresenta TOB para seus fieis, para suas comunidades e no final quando perguntem quem fala isso, quem fala esta maravilha, ele diz que é um filosofo polonês, Karol Wotyla e para por ai! Este fato, além de nos dar uma santa vergonha pela nossa lentidão católica em acolher estes ensinamentos, não nos deveria arder o coração, como arderam os dos discípulos de Emaús, após reconhecerem que era o mesmo Cristo que lhes explicava tudo, como a Igreja explica para nos hoje?

E quanto faltará ainda para que a Teologia do Corpo não seja um tesouro escondido, mas algo a ser vivido, proclamado nas telhas porque toda pessoa merece saber que  sua pessoa, da sua sexualidade,  sua vida, foi redimido por Nosso Senhor dando assim um novo sentido para sua vida? Depende de mim e de você, pois assim Deus quis em sua infinita sabedoria, pois desde o Batismo nos une intimamente à sua obra Redentora.
 
Vamos ler os sinais dos tempos unidos à Santa Igreja Católica, meus caríssimos participantes deste I Congresso Internacional de Vida e Família, e que Jesus, Maria, José e o amado Papa João Paulo II, servo de Deus, nos inspirem, nunca nos deixem desanimar e que possamos contemplar, pela misericórdia do Senhor, um dia no céu, os frutos de ter dado a nossa vida por toda vida humana, que por ser humana está chamada a ser eterna!

Muito Obrigada

I Congresso Internacional de Vida e Família (2008)


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