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Tu és o dia; Tu és a noite
Por: Peter Lippert
Um diálogo entre Jó – que aqui simboliza todo o ser humano com sede de verdade – e Deus, que se dá a conhecer ao mesmo tempo em que permanece intangível à nossa razão.
• TU ÉS O DIA
Senhor, permite-me que fale agora do muito que me agrada o teu mundo! É com tranqüilidade e bem-estar, com um sentimento de posse que acomodo na terra, como se ela fosse a minha casa!
Tu colocaste no céu azul um sol maravilhoso. Como hei de agradecer-to? Como manifestar-te a sensação de beleza indescritível que me causa o calor dos seus raios? E a luminosidade que esse sol derrama sobre a terra, sobre os montes e mares e vales! É verdadeiramente boa esta tua obra! Mas maior felicidade ainda me causa o sol que nos ilumina o íntimo. Podermo-nos olhar a nós mesmos, ter conhecimento das nossas pessoas, examinar a nossa actividade, ver o contínuo refluxo da vida do nosso coração, tudo isso é uma maravilha superior à que nos é oferecida quando contemplamos o vaivém do mar e a revolução das tuas estrelas. E a luz do sol, incidindo sobre os montes, o curso das estrelas, só são verdadeiramente belos, só causam uma felicidade radiante que nos atinge o âmago da alma, quando simultaneamente nos damos conta das palpitações do nosso sentir e do tecido luminoso dos nossos pensamentos. Faz-se dia à nossa volta quando se faz dia em nós e o céu só é bem azul, significativo e melodioso, quando olhamos as paisagens da nossa alma. Como são de lamentar os pobres animais desprovidos de intelecto que vivem nas tuas florestas e nos nossos estábulos, por não poderem ver o dia verdadeiro, por rastejarem, amarrados ao crepúsculo dos seus sentidos e das suas almas cativas. Que sabem eles de si e de nós, dos problemas últimos, dos horrores e da sabedoria da existência? Por isso, nada aproveitam do verde dos prados e do calor dos estábulos.
Mas nós temos dia no nosso ser, dia que ilumina também o mundo. Por cima do escuro rugir das ondas da existência, está uma luz clara que nos aguça a vista e o entendimento, que nos liga a todos os seres, sem nos prender nem prejudicar, que nos abre profundezas que não nos devoram. Oh, a luz do entendimento, o milagre do saber! Libertam-nos do freio do momento que passa – oferecem-nos o passado e o futuro; e arrancamo-nos assim à estreiteza do cantinho ocasional em que nos encontramos. Ganhamos largueza e espaço e tudo o que estes compreendem; satisfaz-se o impulso que nos leva para tudo o que é longínquo, porque é pelo conhecimento que a nossa alma se espraia por onde algo existe e o absorve na luz do seu dia íntimo. Esquecemos, então, a dor silenciosa que nos possa ser causada pela nossa atividade, porque a vemos pequena e mesquinha, qual grão de areia revolvido pelas ondas. O nosso saber alarga-se e abrange tudo, abrange o Universo. Sou o senhor de tudo o que compreendo e encontro-me no centro daquilo que vejo.
O meu caminho de luz estende-se mesmo até junto de ti. Emito os meus pensamentos e estes, elevando-se para ti, envolvem-te e trazem-te até mim. Possuo-te, na medida em que penso em ti. E ao pensar em ti, penetro-te de modo a poder falar-te, uma vez que estás tão próximo, nos caminhos flutuantes do meu pensar. Consigo atingir-te com os meus raios que se aconchegam à tua volta, consigo envolver-te no tecido dos meus pensamentos, como se fosses uma criancinha que eu tivesse dado à luz. No entanto, eu não te criei pelo esforço da fantasia; recebi-te, rodeei-te com os meus braços, absorvi-te e trago-te por toda a parte comigo. Assim te fizeste meu.
É este o dia que brilha em mim e, por vezes, chego a ter a impressão de que é o dia que eu próprio criei e do qual me posso orgulhar. Sou eu que olho à minha volta, que escuto e relaciono tudo o que experimentei e vivi. E assim criei, pela segunda vez, em mim, o teu mundo, como também a ti; consegui possuir em mim aquilo que és e fizeste para além do meu eu. Mas trata-se afinal do teu dia, do dia que Tu criaste. Foste Tu que me deste o poder de penetração e entendimento que possuo; foste Tu que criaste a luz que te ilumina, a ti e ao teu mundo; foste Tu que abriste em mim os olhos do espírito, essa luz que me permite ver. E sobre ela colocaste o mundo, para que eu pudesse entendê-lo, um mundo compreensível, embora apenas em parte. Porque o incompreensível que o mundo apresenta ultrapassará, de longe, o nosso entendimento. À superfície, ele é simples e claro, tão simples e tão claro que uma criança o pode entender. Mas tudo o que se encontra sob essa superfície, só Tu sabes. Todavia, deste-nos um entendimento de criança e colocaste à volta do mundo uma pequena camada transparente que nos foi destinada.
Deste ao mundo unidade, conexão e entendimento para nós. Tornaste simples o curso das estrelas e a queda dos corpos, para que os pudéssemos compreender e saber de antemão como se movem e caem. Estruturaste a seqüência das estações, com riqueza e variedade, mas também com simplicidade e exatidão, para que pudéssemos acompanhá-las e ver como se articula a sua engrenagem. Chegaste mesmo ao ponto de tornar o meu mundo agradável, para que o achássemos belo, a nosso gosto. As estrelas percorrem arcos simples e grandiosos através do espaço, as tuas plantas e animais apresentam formas inteligíveis, graciosas, encantadoras, gratas à vista. Não te limitaste a apresentar-nos as coisas envoltas em luz; deste-lhes cores belas e suaves, benéficas para o nosso espírito.
Até mesmo sobre os mais profundos enigmas que enfrentamos, paira um misterioso reflexo de beleza que podemos compreender. Sobre o temível sinal da Cruz e do Crucificado, sobre todos os quadros de dor e sobre o martírio sangrento dos teus santos, há um brilho maravilhoso, que já vimos e que as nossas mãos tentaram imitar. Esse brilho iluminou as paredes mortas das nossas construções. Pintamos vultos luminosos nas nossas paredes e colocamo-los sobre os teus altares. Que bela deve ser a luz que Tu dimanas, para que mesmo no sofrimento e na morte haja ainda um vislumbre de beleza que Tu aí fizeste incidir – e tudo isso para nós.
Tu prestaste um poderoso auxílio à nossa ânsia de saber. Fizeste mais ainda: indicaste para onde devíamos olhar; dirigiste-nos palavras, palavras capazes de transpor o nosso entendimento, para além das densas barreiras do desconhecido. Tal como se toma uma criança nos braços para ela poder olhar, por cima de uma sebe, para um jardim estranho, Tu chamaste o nosso espírito e permitiste-lhe olhar o teu mistério. Ensinaste-nos palavras plenas de conteúdo; e embora elas nos pareçam estranhas e só desajeitadamente as consigamos imitar, embora na nossa boca elas percam algo de verdadeiro que possuem em ti, ainda assim nos iluminam mistérios e milagres, os milagres do teu amor e da tua misericórdia, como Tu lhes chamaste, que iluminam o sentido último do teu pensamento e atividade e as promessas das nossas relações contigo. Todos os homens ávidos de saber, todos os teus adoradores na terra choraram lágrimas de alegria pelo poder de visão que lhes concedeste. Até mesmo as pobres palavras balbuciantes que imitamos de ti, estão tão cheias de um vigor doce e enérgico que nunca nos cansamos de saborear.
Assim, Tu colocaste o teu mundo e a tua atividade, quase te colocaste a ti também, em pleno dia, em plena luz. Tudo se tornou inteligível, tudo se tornou claro, transparente e compreensível. Todo o teu mundo e Tu próprio, tudo segue as leis da beleza e harmonia que nós podemos compreender. Tudo é ordem, unidade e precisão e nós regozijamo-nos sempre que o verificamos. É este o dia que Tu criaste, o dia em que Tu nos apareces.
Teremos então o direito de pensar que é o teu dia? Aquele em que Tu próprio vives? Que és uma luz própria que de ti irradia e ilumina colinas e vales e mares deste tempo? Ó, então este dia que percorremos teria beleza e doçura infinitamente maiores e eu compreenderia a razão por que todos os espíritos repousam com bem-estar e alegria na luz deste teu mundo. Se nós na sua luz pudéssemos ver a tua própria luz!
Só em luminosidade infinita podemos imaginar a tua vida, uma vida que decorre num brilho intenso, incomensurável, a envolver-te a ti e ao espaço. E essa luz seria a mesma que nos envolve a nós e ao nosso espírito. A clareza, a ordem, a harmonia e a beleza que tanto amamos, existiram também em ti. Teríamos o direito de pensar que as órbitas, segundo as quais se movimentam os teus astros, e a imensidade das tuas plantas e animais, são também para ti motivo de beleza. Poderíamos tomar a luz do dia como guia para nos levar a ti. A clareza, a ordem, a razão seriam sempre um sinal de que nos aproximamos de ti, de que estás perto de nós. E pelo contrário, tudo o que para nós é obscuro, sombrio e confuso significaria que te perdemos de vista. Poderíamos até determinar os contornos do teu vulto, poderíamos, pelo menos, dizer onde terminas, onde deixas de existir, onde reside para ti a impossibilidade: no ponto onde pára o nosso espírito começam o contra-senso e a loucura, o vazio, o nada e a maldade.
Temos, portanto, uma mesma língua materna. As palavras que o nosso espírito pronuncia, as palavras de entendimento, de saber, de reconhecimento criador, estas palavras do nosso íntimo ressumam o mesmo significado que enche a tua palavra eterna, aquela que pronuncias em ti próprio. Nós compreendemo-nos porque Tu ensinaste a tua palavra paterna que passou a ser a língua comum do nosso espírito. Meu Deus! Nós vivemos numa mesma luz, falamos uma mesma língua, obedecemos a uma mesma lei – Tu, Nosso Senhor! Sentimos a alegria inefável da tua proximidade. Tu és o teu dia e és também o meu.
• TU ÉS A NOITE
Senhor, como poderá acontecer que nos fatiguemos até mesmo do dia, do teu dia? Não por capricho, por não suportarmos a demasiada doçura da tua luz, mas porque somos levados, na verdade, a duvidar da luz do dia! Não nos enganará ela sobre as profundezas que esconde, sobre esses abismos tenebrosos, insondáveis e misteriosos, que não são dia, mas noite?
Mesmo quando eu ainda gozava pacificamente e me embriagava com a luz do dia, já despontava em mim uma dúvida que me fazia perguntar a mim próprio: esta claridade cristalina, estas evidências tão agradáveis, esta transparência, não serão apenas a superfície do teu mundo? Não a terás feito propositadamente para nós, teus filhos tímidos? Era impossível que, um dia ou outro, não viéssemos a notar que a transparência e a claridade superficial das coisas não são tudo, não contêm toda a realidade!
O nosso dia tende constantemente para um crepúsculo. A nossa razão embota-se e esvazia-se, as nossas classificações tornam-se estreitas e rígidas, a nossa inteligência não é afinal mais que uma peneira que deixa passar tudo o que gostaríamos de reter, deixando-nos apenas palha. Os homens de ordem, de razão, de reflexão clara e fria nunca escapam à estreiteza rígida e à cegueira. Justamente aqueles que pareciam estar na luz mais crua, tornam-se sempre cegos. Terá sido a tua luz que os cegou? Eles constituem então um entrave para todo o impulso vital. A claridade que tanto apreciamos torna-se fria, quase dura. E gelamos no meio da nossa razão. Tudo se transforma em gelo límpido, mas morto. É então que duvidamos da nossa ordem e da nossa lógica, da beleza e vastidão dos nossos conhecimentos, da duração e precisão do nosso saber, em que julgávamos poder gozar de uma segurança perfeita.
Quando o nosso espírito se abre totalmente, tornando-se clarividente, a nossa lucidez apavora-nos então, como um preâmbulo de demência. Atormenta-nos a lógica impiedosa do nosso pensamento, como se estivéssemos presos a uma roda em contínua rotação. Os nossos conhecimentos arrastam-nos para os cumes gelados da dúvida e da saciedade, onde toda a vida paralisa. Será o nosso pensamento um vampiro que nos suga o sangue? Elevamos, para além do real tangível, construções cuja ousadia ultrapassa todos os planos do visível. Não teremos construído no vazio?
Nós temos uma vida própria, cuja interioridade complexa e requintada nada tem de comum com a vida apagada dos sentidos, das árvores e dos animais. Com que orgulho lhe chamamos vida do espírito! Mas talvez ela não seja mais que um triste engano. Talvez sejamos vítimas de um gênio mau e astuto, quando pensamos e criamos, quando estabelecemos lógicas, raciocínios e sistemas sabiamente elaborados. Porque esta vida do espírito, de que nos orgulhamos, gera também os nossos desfalecimentos, as nossas impaciências, as nossas suscetibilidades, os nossos fanatismos e as nossas crueldades. É no campo do espírito que travamos os nossos estúpidos combates contra moinhos de vento e sofremos derrotas ridículas. As nossas façanhas espirituais!
Não nos preveniste já que o nosso saber nos torna jactantes? É mais que certo que nos tira a ternura de coração, o abandono e a generosidade, que nos enfraquece. Afilamos os pensamentos até que a ponta se parte, somos lógicos nos nossos raciocínios até à loucura, mas nunca somos conseqüentes nas nossas ações – até à mentira. Mas é possível que nos salvemos muitas vezes nesta contradição, visto que será a negação dos nossos raciocínios a manter-nos sãos. A mentira tem que nos salvar dos nossos excessos de razão. Não poderemos olhar o fato como uma autêntica flor das trevas do nosso espírito?
Nós quereríamos abranger a realidade numas poucas frases inteligíveis, em planos e conclusões. E uma vez tudo cuidadosa e habilmente construído e combinado, eis que somos forçados a constatar que os nossos reservatórios não retiveram as águas em eterna corrente. Fabricamos tonéis sem fundo, lançamos redes para prender os raios do sol. Deparamos constantemente com aparências diferentes das que esperávamos, sempre ligeiramente diferentes, como que para nos desfrutar; há sempre algo que ultrapassa as nossas previsões. Quantas tabuletas de interdição se encontram por toda a parte, na terra dos homens, proibições que a realidade descuidadamente ignora! A realidade troça da nossa verdade; e nós tínhamos pensado que a realidade e a verdade eram indissolúveis! Por isso a nossa verdade nos parece por vezes tão árida e gasta, como que feita de palha. É maçadora, torna pesado o impulso das nossas asas.
Os cuidados que temos de dispensar à nossa verdade – porque temos de o fazer –paralisam-nos a vontade; até mesmo a nossa bondade recua perante o dedo curvo e ameaçador da nossa verdade, porque está de certo modo consciente da sua culpa. E quando nós, finalmente, cansados de fazer concessões, ultrapassamos ousadamente estas verdades gastas, verificamos que não eram mais que espantalhos. De realidade apenas tinham os traços e o nome; vida alguma lhe animava os membros rígidos e desengonçados.
Mas então vamos, na verdade, duvidar do dia? Do dia feito pelo Senhor? É impossível que Tu desejes ver-nos esquecer e renegar a prudência, a inteligência e a claridade para seguirmos, às cegas, os nossos impulsos. E no entanto, parece ser essa, por vezes, a tua intenção. Porque a prudência a que nos referimos faltou muitas vezes aos teus santos; dissiparam sem poupar; avançaram impetuosamente sem olhar para trás. Desfraldaram todas as velas ao vento das tuas tempestades; e sem prudência, ultrapassaram todas as realizações das nossas prudências. E eras Tu que os conduzias pela mão, que os guiavas através das advertências das nossas estreitas circunspecções. Sim, és Tu que nos arrancas à bela quietude dos nossos dias trasbordantes de luz, que nos impeles continuamente para a noite. Ensinas-nos, sem cessar, que os nossos dias provêm das trevas.
É do escuro e inexplorado que jorram águas novas, fontes vivas, quando as antigas secaram; lá bem do fundo, de profundezas que sol algum ilumina. É do subconsciente, das trevas de um poderoso impulso de criação e de vida, do fundo de corações trasbordantes, que surge e se renova constantemente a água viva. Na noite, para além de toda a reflexão e previsão, são espalhadas novas sementes; tempestades doidas renovam as tuas estrelas que envelhecem e fecundam de novo os espíritos fatigados.
É assim que Tu vivificas, que Tu regeneras, que Tu libertas na noite, onde já não chega a luz do nosso pensar. Tu habitas a noite. Serás acaso essa noite? Serás apenas a contradição do nosso dia ou renegarás igualmente o teu próprio dia? É assim que nos apareces: destróis o que edificas, apagas o que iluminas e abençoas o que jaz nas trevas. Quem já alguma vez aventurou um olhar para a tua noite – oh!, um homem só de muito longe o pode fazer, para não morrer-terá sentido a tentação de passar a crer apenas na voz das profundezas, naquilo que se encontra sob esta superfície diáfana, brilhantemente iluminada. Toda essa transparência, toda essa ordem parecem-lhe uma trama vazia, restos ou palha, semelhantes à nuvem de pó que os processos de transformação deixam atrás de si, cintilando um momento à luz do sol. Por outro lado, o imponderável, o imprevisível, o inconcebível, o indizível surgem por toda a parte e conquistam o mundo. Os nossos conceitos cuidadosamente elaborados ficam reduzidos à insignificância, os nossos sistemas adquirem um ar ridículo, os nossos pensamentos sublimes não são mais que uma miragem longínqua, que nos foge quando a vamos agarrar. E fica-nos a realidade, tão diferente dos nossos mais sublimes pensamentos. Uma realidade sombria, ameaçadora e cheia de perigos, onde não cabe aquilo a que chamamos ordem – a ordem que tanto amamos –, onde não há constância, harmonia, beleza nem tranqüilidade! Uma realidade que é uma revolução contínua, um redemoinho, um turbilhão, uma fuga desordenada e um eterno recomeçar, semelhante às ondas do teu mar que correm constantemente para as praias, para logo recuar e tornar a avançar -tudo absurdo, inconsciente, forçado.
É esta, sem dúvida, a tua vontade. Tem de haver noite, porque Tu próprio és a noite. És esse impulso obscuro que perpassa pela tua criação, a vaga desordenada e tumultuosa, o caos. Mas é justamente neste caos que reside a tua fecundidade criadora. Em ti, o informe é pleno de beleza e o obscuro radiante. Em ti, o impulso selvagem é pleno de bondade e a tempestade devastadora transborda de colheitas futuras.
Por isso as nossas inspirações vêm desse abismo obscuro – por grandes que elas possam vir a ser em nós! Se quisermos ganhar forças vivas, beber das fontes do ser e da vida, teremos de abandonar os caminhos luminosos da nossa experiência quotidiana e fechar os olhos antes de ousar saltar para o teu abismo. Para nos unirmos totalmente a ti, para vibrarmos em uníssono com a vida, teremos de nos deixar cair nessa noite sagrada, prenhe de mistério, onde as nossas meditações, reflexões e apreensões adormecem. É preciso que as tuas sombras nos cubram o espírito para que possa vingar o fruto da tua vida, que nos depuseste no seio.
Por conseguinte, Tu és o dia e a noite e nós somos apenas crepúsculos. Por isso a história que nos relata a tua criação acrescenta após cada uma das tuas obras: “E houve tarde e houve manhã”. Tudo o que Tu criaste é tarde e manhã, está contido entre o dia e a noite, toda a tua obra repousa sobre essa linha estreita que separa aquilo que chamamos tarde e manhã. Aos melhores dos teus espíritos chamaste “Lucíferes”, estrelas da manhã; e nós, criaturas humanas, somos certamente os seres da tarde. O dia precede-nos e nós corremos atrás dele, que nos foge sem cessar. Mas por detrás de nós avança a noite, cujo seio nos dá constantemente à luz.
Tu, porém, és o dia e a noite, sempre diante de nós, sempre atrás de nós, origem e fim, em distâncias inacessíveis. Porque nós não nos podemos furtar às ruelas estreitas da manhã e da noite. Na luz crepuscular do ocaso e da aurora, paira através dos espaços o longo cortejo fantástico das tuas criaturas. O acesso ao meio-dia tórrido em que te encontras, e ao coração da noite, essa noite profunda, doce e sem fim, está-lhes interdito. Tu, insondável! Tu habitas uma luz inacessível que é também a tua treva inatingível.
* Jesuíta alemão nascido em 1879 e falecido em 1936. Tornou-se conhecido por sua pregação, pelos seus artigos e pelos seus livros de espiritualidade.
Fonte: “E Job disse a Deus”, Editorial Aster, Lisboa, 1958, págs. 35 a 46.
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Tradução: Gudrun Hamrol
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