Valorizar a vocação

Por: Martha Morales

O mais característico de uma vocação consiste em entregar o que se tem, o que se domina, para que Deus faça o que quiser. E Ele dá o que essa pessoa não controla. É preciso fé e humildade. Quem entrega tudo a Deus, é quem tem mais segurança, uma vida baseada na obediência da fé que faz avançar nessa escuridão luminosíssima. Abraão tinha sua segurança pessoal e era de idade avançada, mas Deus lhe pediu que saísse de sua terra, de sua segurança; quis que fizesse coisas mais elevadas.

Bento XVI diz: “Hoje, precisamos – mais que nunca – perseverar na vocação e na profissão; hoje precisamos – mais que nunca – pessoas que se entreguem por inteiro. É útil que existam pessoas que se dediquem a um trabalho durante dois ou três anos, mas também é necessário que muitas outras se dediquem inteiramente. Existem vocações que exigem a totalidade da pessoa” (Deus e o Mundo, pág. 241).

A vocação é nosso nome, é o mais profundo de cada um de nós. Ali, se esclarece quem é o homem e quem é Deus, é o modo mais exato de definir a pessoa. Temos de agradecer e amar a nossa vocação.

Dentro desta vocação, existem “pequenos chamados”, que são os de cada dia. Assim vamos sendo o que temos de ser: pessoas fiéis. Deus nos escolheu, fomos chamados. A que? A ser santos no meio das ocupações de cada dia, do pequeno dever de cada instante.

A vocação significa ir onde não sabemos, como Abraão. A vida pode ser definida como um arriscado compromisso com Deus. O chamado implica aceitar o que Deus me manda. As árvores que Deus mais ama são as que mais poda. Se contemplarmos a vida de Jesus, veremos que sofreu muito, passando por muitos sacrifícios.

Se a vocação fosse “construir-me a mim mesmo”, já não haveria esse risco, esse ímpeto de aventura. A aventura da fé se tornaria uma procura do “eu”. A vocação é resposta a Deus, não resposta a mim mesmo. É preciso ter coragem para dizer sim a Deus”. “Ao vencedor – diz o Apocalipse – darei o maná escondido e lhe entregarei uma pedra branca, na qual está escrito um nome novo que ninguém conhece, senão aquele que o receber” (2,17).

As “vocações pequenas”, aquelas de todos os dias, são chamados ocultos que só Deus e eu conhecemos. A vocação implica incerteza sobre o futuro, e ali está a fé. É vontade de Deus que passemos por momentos de bonança ou de tempestade. Viver com alegria todos os dias é amor de Deus. O caminho é “ir por onde não sabemos”, diz São João da Cruz. A máxima liberdade é dizer “sim” a Deus.

São Pedro disse: “Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1, 10-11).

A maior vocação que já existiu é a da Virgem Maria. Deus chama a cada batizado a enriquecer a Igreja com a própria santidade e com o apostolado. Ele nos chama para fazer felizes àqueles que nos rodeiam. Um autor do Século de Ouro espanhol escreve: “Entre todas as cosas humanas, nenhuma há que com maior acordo se deva tratar (...) que é sobre a escolha da vida que devemos seguir. Porque se neste ponto se acerta, tudo mais será certo; e, ao contrário, se neste ponto se erra, quase tudo mais será errado”, diz frei Luis de Granada (Guia de Pecadores).

Existem pessoas que pensam que a felicidade consiste em ter o futuro controlado. Não somos tão magnânimos como Deus. Ele sabe mais. Parece que quem pode é o mais forte, mas não é assim. Quem mais pode é quem confia em Deus, embora não controle os fatores de sua vida. Se alguém não for fiel, as coisas de qualquer modo irão para frente, mas a Igreja está feita de fidelidades, de respostas afirmativas. Por isso, sempre estamos seguros em um mar turbulento.

A conscientização do chamado de Deus é o fundamento da esperança dos chamados. Peter Seewald, em 1996, fez uma entrevista ao então Cardeal Ratzinger, e lhe perguntou quantos caminhos existem para chegar a Deus. O Cardeal respondeu: “Tantos quanto homens”. Logo acrescentou: “Tenho a certeza de que Deus olhou para mim. Nesta certeza está baseada a minha vida e nela quero viver e morrer”.

O que é nossa vocação divina, não compreendemos muito. A vocação a entendemos muito pouco porque é um dom de Deus. Na medida em que tratemos o Espírito Santo, a entenderemos. O mesmo acontece com as bem-aventuranças, mas entendemos as coisas na oração. Jesus Cristo explicava muitas coisas a seus discípulos, em suas caminhadas. Também nós vamos entender mais na oração.

A felicidade se consegue saindo da lógica, isto é, dos próprios esquemas, saindo do racional. As coisas maiores foram feitas fora da rotina dos limites seguros, arriscando as próprias seguranças. Para que aconteça “o milagre” de que eu melhore, é preciso colocar diante de Deus minha debilidade, minha doença e meus limites, enquanto que Deus põe seu Poder, Bondade e Misericórdia.

A juventude sonha, almeja ideais altos, voa enfrentando as dificuldades sem medo. Quem não se lançar à aventura não faz nada de grande. Será Deus quem realizará a obra. Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.

A entrega a Deus com um coração indiviso sempre existirá na Igreja. O celibato é um dom de Deus. Para viver com alegria no caminho é preciso aprofundar a realidade de que é Deus quem chama. O Cardeal Henry Newman dizia que a vocação é viver em estado permanente de chamado.

Um dos irmãos Missionários da Caridade disse a Madre Teresa de Calcutá:

- A minha vocação é cuidar dos leprosos.

- Está equivocado, irmão – ela respondeu - sua vocação é pertencer a Jesus. O trabalho que realizar somente será uma maneira de expressar-lhe seu amor; conta menos o que você fizer.

Algumas vezes perecerá que a vocação nos supera e, no entanto, é o farol de luz. A pessoa que decide viver sua vocação, decide fazer a vontade de Deus, não um desígnio pessoal ou um plano de auto-afirmação. Jesus disse a alguns apóstolos: “Sigam-me e eu os farei pescadores de homens”. Jesus diz, em outras palavras, “mude os seus esquemas e venha comigo”. “Eu os farei”, isto é, Eu os transformarei. Deus não chama os dotados. Deus chama para dotar. Nossa Senhora não disse “Eu farei”, mas “Faça-se em mim”, e deixou que Deus fizesse.

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Corporeidade e Espiritualidade